“Bocado comido, bocado esquecido”: a ingratidão escancarada na política
Na
política, a memória costuma ser curta — ou convenientemente seletiva. O velho
ditado popular “bocado comido, bocado esquecido” nunca fez tanto sentido quanto
agora, diante de um cenário onde a ingratidão deixou de ser exceção e passou a
ser regra.
É
constrangedor assistir a determinados políticos que, até ontem, tratavam seus
aliados como exemplos de virtude, competência e lealdade. Eram “os melhores”,
“os mais preparados”, “indispensáveis”. Bastou, porém, uma mudança de lado, um
rompimento ou a simples perda de interesse político, para que esses mesmos
personagens passassem a ser descritos como irresponsáveis, sem compromisso e indignos
de confiança.
A
pergunta que não quer calar é simples: estavam mentindo antes ou estão mentindo
agora?
A
política sempre foi terreno de divergências — isso é natural e até saudável
dentro da democracia. O que não é normal, tampouco aceitável, é essa transformação
instantânea de heróis em vilões conforme a conveniência. Isso não revela apenas
disputa política; revela falta de caráter político, ausência de coerência e,
sobretudo, desrespeito à inteligência do eleitor.
Mais
do que uma quebra de alianças, o que se vê é uma tentativa descarada de
reescrever narrativas. Apaga-se o passado recente, ignoram-se elogios feitos em
público, fingem que nunca caminharam juntos. Como se o eleitor não tivesse
memória. Como se os discursos não estivessem gravados. Como se a conveniência
pudesse substituir a verdade.
E
o pior: muitos ainda fazem isso com a maior naturalidade, como se fosse apenas
parte do jogo. Não é. Ou pelo menos não deveria ser.
A
ingratidão na política não é apenas uma falha moral — ela é um sintoma de algo
maior: a fragilidade de princípios.
Quem
muda de discurso com tanta facilidade dificilmente sustenta compromisso firme
com qualquer projeto que não seja o próprio poder.
O
eleitor, por sua vez, precisa estar atento. Mais do que promessas, é preciso
observar comportamentos. Mais do que discursos, é necessário avaliar coerência.
Porque, no fim das contas, quem hoje esquece um aliado com quem dividiu
palanque, amanhã pode esquecer também os compromissos assumidos com a
população.
Na
política, o “bocado” pode até ser esquecido por quem come. Mas para quem
observa, registra e cobra, a conta sempre chega.


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