“Bocado comido, bocado esquecido”: a ingratidão escancarada na política

Por Paulo Sergio de Carvalho 16/04/2026 - 18:00 hs
Foto: PSC JORNALISMO VERDADE
“Bocado comido, bocado esquecido”: a ingratidão escancarada na política
“Bocado comido, bocado esquecido”: a ingratidão escancarada na política

Na política, a memória costuma ser curta — ou convenientemente seletiva. O velho ditado popular “bocado comido, bocado esquecido” nunca fez tanto sentido quanto agora, diante de um cenário onde a ingratidão deixou de ser exceção e passou a ser regra.

É constrangedor assistir a determinados políticos que, até ontem, tratavam seus aliados como exemplos de virtude, competência e lealdade. Eram “os melhores”, “os mais preparados”, “indispensáveis”. Bastou, porém, uma mudança de lado, um rompimento ou a simples perda de interesse político, para que esses mesmos personagens passassem a ser descritos como irresponsáveis, sem compromisso e indignos de confiança.

A pergunta que não quer calar é simples: estavam mentindo antes ou estão mentindo agora?

A política sempre foi terreno de divergências — isso é natural e até saudável dentro da democracia. O que não é normal, tampouco aceitável, é essa transformação instantânea de heróis em vilões conforme a conveniência. Isso não revela apenas disputa política; revela falta de caráter político, ausência de coerência e, sobretudo, desrespeito à inteligência do eleitor.

Mais do que uma quebra de alianças, o que se vê é uma tentativa descarada de reescrever narrativas. Apaga-se o passado recente, ignoram-se elogios feitos em público, fingem que nunca caminharam juntos. Como se o eleitor não tivesse memória. Como se os discursos não estivessem gravados. Como se a conveniência pudesse substituir a verdade.

E o pior: muitos ainda fazem isso com a maior naturalidade, como se fosse apenas parte do jogo. Não é. Ou pelo menos não deveria ser.

A ingratidão na política não é apenas uma falha moral — ela é um sintoma de algo maior: a fragilidade de princípios.

Quem muda de discurso com tanta facilidade dificilmente sustenta compromisso firme com qualquer projeto que não seja o próprio poder.

O eleitor, por sua vez, precisa estar atento. Mais do que promessas, é preciso observar comportamentos. Mais do que discursos, é necessário avaliar coerência. Porque, no fim das contas, quem hoje esquece um aliado com quem dividiu palanque, amanhã pode esquecer também os compromissos assumidos com a população.

Na política, o “bocado” pode até ser esquecido por quem come. Mas para quem observa, registra e cobra, a conta sempre chega.